CÓCCIX SEXY CLAVÍCULA...
Escultura viva harmoniosa suas costas retorcendo-se, que omoplata linda, ainda mais quando os longos lisos cabelos castanhos e dourados, sobre as ondas de suas costelas na tez de sua pele sedosa, movem-se subitamente, distraindo-me, para que seus olhos marrons claros me olhem cheios de desejo marcados pelo lápis negro. Sete vértebras cervicais giram, cóccix sexy, cóccix sexy, de forma magnífica, seus músculos formam tênues caminhos e me seguem, retorcendo, comprimindo sua nuca, seus braços seu abdome, queria poder mordê-los, todos, um a um. E vivo no seu sibilar, Cóccix sexy, cóccix sexy, cóccix sexy...
Não me engane! Quer me tocar eu sei... Hum! Sua clavícula é maravilhosa, sensual e maliciosa, me excita. Clavículas que me deixam louco de desejo. Vejo-me abocanhando-as, lambendo a pele macia que as cobre. Seu ventre, seu tórax, seu púbis e seus pelos de mulher, suas entranhas sagradas, molhadas, quentes e femininas demais. Quando a viro e vejo sua coluna, apoio em seu cóccix pra poder ter poder. Seu cóccix é sexy, isso cóccix sexy, como sibilar da serpente, cóccix sexy, cóccix sexy, cóccix sexy, um idioma neutro, clavícula e cóccix sexy, harmônico, puro. Nada como você, pele e ossos... Minha delicia, cóccix sexy clavícula. Ouço seu sibilar de serpente, cóccix sexy, cóccix sexy, cóccix sexy...
Escultura viva harmoniosa suas costas retorcendo-se, que omoplata linda, ainda mais quando os longos lisos cabelos castanhos e dourados, sobre as ondas de suas costelas na tez de sua pele sedosa, movem-se subitamente, distraindo-me, para que seus olhos marrons claros me olhem cheios de desejo marcados pelo lápis negro. Sete vértebras cervicais giram, cóccix sexy, cóccix sexy, de forma magnífica, seus músculos formam tênues caminhos e me seguem, retorcendo, comprimindo sua nuca, seus braços seu abdome, queria poder mordê-los, todos, um a um. E vivo no seu sibilar, Cóccix sexy, cóccix sexy, cóccix sexy...
Não me engane! Quer me tocar eu sei... Hum! Sua clavícula é maravilhosa, sensual e maliciosa, me excita. Clavículas que me deixam louco de desejo. Vejo-me abocanhando-as, lambendo a pele macia que as cobre. Seu ventre, seu tórax, seu púbis e seus pelos de mulher, suas entranhas sagradas, molhadas, quentes e femininas demais. Quando a viro e vejo sua coluna, apoio em seu cóccix pra poder ter poder. Seu cóccix é sexy, isso cóccix sexy, como sibilar da serpente, cóccix sexy, cóccix sexy, cóccix sexy, um idioma neutro, clavícula e cóccix sexy, harmônico, puro. Nada como você, pele e ossos... Minha delicia, cóccix sexy clavícula. Ouço seu sibilar de serpente, cóccix sexy, cóccix sexy, cóccix sexy...
A
Rua dos Cataventos
Da
vez primeira em que me assassinaram,
Perdi
um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois,
a cada vez que me mataram,
Foram
levando qualquer coisa minha.
Hoje,
dos meu cadáveres eu sou
O
mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde
um toco de Vela amarelada,
Como
único bem que me ficou.
Vinde!
Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois
dessa mão avaramente adunca
Não
haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves
da noite! Asas do horror! Voejai!
Que
a luz trêmula e triste como um ai,
A
luz de um morto não se apaga nunca!
Mario
Quintana
Fernando Pessoa
Tabacaria
Não
sou nada.
Nunca
serei nada.
Não
posso querer ser nada.
À
parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas
do meu quarto,
Do
meu quarto de um dos milhões do mundo.
que
ninguém sabe quem é
(
E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais
para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para
uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real,
impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com
o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com
a morte a por umidade nas paredes
e
cabelos brancos nos homens,
Com
o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou
hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou
hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E
não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão
uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A
fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De
dentro da minha cabeça,
E
uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou
hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou
hoje dividido entre a lealdade que devo
À
Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E
à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei
em tudo.
Como
não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A
aprendizagem que me deram,
Desci
dela pela janela das traseiras da casa.
Poema
em linha reta
Nunca
conheci quem tivesse levado porrada.
Todos
os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E
eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu
tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente
sujo.
Eu,
que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu,
que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que
tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que
tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que
tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que
quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu,
que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu,
que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu,
que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem
pagar,
Eu,
que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para
fora da possibilidade do soco;
Eu,
que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu
verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda
a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca
teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca
foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem
me dera ouvir de alguém a voz humana
Que
confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que
contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não,
são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem
há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó
príncipes, meus irmãos,
Arre,
estou farto de semideuses!
Onde
é que há gente no mundo?
Então
sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão
as mulheres não os terem amado,
Podem
ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E
eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como
posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu,
que venho sido vil, literalmente vil,
Vil
no sentido mesquinho e infame da vileza.
O
guardador de rebanhos
Eu
nunca guardei rebanhos,
Mas
é como se os guardasse.
Minha
alma é como um pastor,
Conhece
o vento e o sol
E
anda pela mão das Estações
A
seguir e a olhar.
Toda
a paz da Natureza sem gente
Vem
sentar-se a meu lado.
Mas
eu fico triste como um pôr de sol
Para
a nossa imaginação,
Quando
esfria no fundo da planície
E
se sente a noite entrada
Como
uma borboleta pela janela.
Mas
a minha tristeza é sossego
Porque
é natural e justa
E
é o que deve estar na alma
Quando
já pensa que existe
E
as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como
um ruído de chocalhos
Para
além da curva da estrada,
Os
meus pensamentos são contentes.
Só
tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque,
se o não soubesse,
Em
vez de serem contentes e tristes,
Seriam
alegres e contentes.
Pensar
incomoda como andar à chuva
Quando
o vento cresce e parece que chove mais.
Não
tenho ambições nem desejos
Ser
poeta não é uma ambição minha
É
a minha maneira de estar sozinho.
E
se desejo às vezes
Por
imaginar, ser cordeirinho
(Ou
ser o rebanho todo
Para
andar espalhado por toda a encosta
A
ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É
só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou
quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E
corre um silêncio pela erva fora.
Ode
marítima
Sozinho,
no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho
pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho
e contenta-me ver,
Pequeno,
negro e claro, um paquete entrando.
Vem
muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa
no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem
entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui,
acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se
velas, avançam rebocadores,
Surgem
barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há
uma vaga brisa.
Mas
a minh’alma está com o que vejo menos.
Com
o paquete que entra,
Porque
ele está com a Distância, com a Manhã,
Com
o sentido marítimo desta Hora,
Com
a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como
um começar a enjoar, mas no espírito.
Olho
de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E
dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
Os
paquetes que entram de manhã na barra
Trazem
aos meus olhos consigo
O
mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem
memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro
modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo
o atracar, todo o largar de navio,
É
— sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente
simbólico, terrivelmente
Ameaçador
de significações metafísicas
Que
perturbam em mim quem eu fui…
Ah,
todo o cais é uma saudade de pedra!
E
quando o navio larga do cais
E
se repara de repente que se abriu um espaço
Entre
o cais e o navio,
Vem-me,
não sei porquê, uma angústia recente,
Uma
névoa de sentimentos de tristeza
Que
brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como
a primeira janela onde a madrugada bate,
E
me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que
fosse misteriosamente minha.
Autopsicografia
O
poeta é um fingidor.
Finge
tão completamente
Que
chega a fingir que é dor
A
dor que deveras sente.
E
os que leem o que escreve,
Na
dor lida sentem bem,
Não
as duas que ele teve,
Mas
só a que eles não têm.
E
assim nas calhas de roda
Gira,
a entreter a razão,
Esse
comboio de corda
Que
se chama coração.
Aniversário
No
tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu
era feliz e ninguém estava morto.
Na
casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E
a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No
tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu
tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De
ser inteligente para entre a família,
E
de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando
vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando
vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim,
o que fui de suposto a mim-mesmo,
O
que fui de coração e parentesco.
O
que fui de serões de meia-província,
O
que fui de amarem-me e eu ser menino,
O
que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A
que distância!…
(Nem
o acho…)
O
tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O
que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo
grelado nas paredes…
O
que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O
que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É
terem morrido todos,
É
estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No
tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que
meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo
físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por
uma viagem metafísica e carnal,
Com
uma dualidade de eu para mim…
Comer
o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Presságio
O
amor, quando se revela,
Não
se sabe revelar.
Sabe
bem olhar pra ela,
Mas
não lhe sabe falar.
Quem
quer dizer o que sente
Não
sabe o que há de dizer.
Fala:
parece que mente…
Cala:
parece esquecer…
Ah,
mas se ela adivinhasse,
Se
pudesse ouvir o olhar,
E
se um olhar lhe bastasse
Pra
saber que a estão a amar!
Mas
quem sente muito, cala;
Quem
quer dizer quanto sente
Fica
sem alma nem fala,
Fica
só, inteiramente!
Mas
se isto puder contar-lhe
O
que não lhe ouso contar,
Já
não terei que falar-lhe
Porque
lhe estou a falar…
Não
sei quantas almas tenho
Não
sei quantas almas tenho.
Cada
momento mudei.
Continuamente
me estranho.
Nunca
me vi nem acabei.
De
tanto ser, só tenho alma.
Quem
tem alma não tem calma.
Quem
vê é só o que vê,
Quem
sente não é quem é,
Atento
ao que sou e vejo,
Torno-me
eles e não eu.
Cada
meu sonho ou desejo
É
do que nasce e não meu.
Sou
minha própria paisagem;
Assisto
à minha passagem,
Diverso,
móbil e só,
Não
sei sentir-me onde estou.
Por
isso, alheio, vou lendo
Como
páginas, meu ser.
O
que segue não prevendo,
O
que passou a esquecer.
Noto
à margem do que li
O
que julguei que senti.
Releio
e digo: “Fui eu?”
Deus
sabe, porque o escreveu.
Todas
as cartas de amor…
Todas
as cartas de amor são
Ridículas.
Não
seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também
escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como
as outras,
Ridículas.
As
cartas de amor, se há amor,
Têm
de ser
Ridículas.
Mas,
afinal,
Só
as criaturas que nunca escreveram
Cartas
de amor
É
que são
Ridículas.
Quem
me dera no tempo em que escrevia
Sem
dar por isso
Cartas
de amor
Ridículas.
A
verdade é que hoje
As
minhas memórias
Dessas
cartas de amor
É
que são
Ridículas.
(Todas
as palavras esdrúxulas,
Como
os sentimentos esdrúxulos,
São
naturalmente
Ridículas.)
O
cego e a guitarra
O
ruído vário da rua
Passa
alto por mim que sigo.
Vejo:
cada coisa é sua
Oiço:
cada som é consigo.
Sou
como a praia a que invade
Um
mar que torna a descer.
Ah,
nisto tudo a verdade
É
só eu ter que morrer.
Depois
de eu cessar, o ruído.
Não,
não ajusto nada
Ao
meu conceito perdido
Como
uma flor na estrada.
Cheguei
à janela
Porque
ouvi cantar.
É
um cego e a guitarra
Que
estão a chorar.
Ambos
fazem pena,
São
uma coisa só
Que
anda pelo mundo
A
fazer ter dó.
Eu
também sou um cego
Cantando
na estrada,
A
estrada é maior
E
não peço nada.
Fonte: http://www.revistabula.com/522-os-10-melhores-poemas-de-fernando-pessoa-2/
Fonte: http://www.revistabula.com/522-os-10-melhores-poemas-de-fernando-pessoa-2/

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